Não fraquejar é combatê-los.
Odiá-los significa alimentá-los.
Não desistir, é maneira de cansá-los.
Decepcioná-los é uma forma de feri-los"
(ESPINDOLA, Ramadan Pereira, 2010).
Fundador do Biblioram. Professor de Kung-fu/Wushu da Associação Hasse de Cultura Oriental e Artes Marciais. Formado em Administração. Bacharel em Biblioteconomia pela Universidade Federal de Santa Catarina
email: ramapereira1@hotmail.com
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Lembro muito pouco das comemorações dos meus aniversários na infância, mas esse que contarei agora foi inesquecível por um detalhe: foi muito SANGRENTO. Década de 80, não recordo qual idade eu estava completando, mas garanto que as crianças dessa época tinham mais liberdade. Os bairros eram menos povoados e todo mundo se conhecia. Nós mal almoçávamos e já íamos brincar, ou seja, éramos viciados em entretenimento. Não havia tanta preocupação com aquecimento global e nem criminalidade. Foi um início de tarde de um domingo, e enquanto meus pais em casa trabalhavam nos preparativos da minha festa, estava eu no antigo campo do Nacional Esporte Clube, uma tradicional equipe de futebol amador do Bairro Ipiranga, em São José, Estado de Santa Catarina (SC). Nesse dia não havia jogo do time, e nossa turminha de amigos costumava jogar uma "pelada" nesse local. Na época, existia pouca grama nos campos abertos, predominava muita areia dividindo espaço com barro marrom. Vamos dizer que era um campo suíço com proporções enormes. As traves eram de troncos de árvores, e as linhas de marcações não eram sinalizadas por cal e nenhuma tinta, e sim, por valas. Eu jogava “na linha”, termo usado para quem não queria atuar como goleiro. Eu era rápido, ambicioso em fazer gols, gostava de jogar no ataque, ou melhor, na ponta direita. Lembro de correr pela lateral em direção a grande área adversária quando entrei numa dividida com um colega que jogava no outro time. Foi uma Jogada normal, e ninguém se contundiu, porém a bola correu para fora e fui correndo atrás dela para arremessá-la. Antes, enfiei meu pé direito com muita força dentro de uma daquelas valas de marcação. Jogávamos sem nenhuma chuteira, tênis, ou coisa parecida. Eram poucos os peladeiros que não jogavam descalços. Dentro daquela infame vala havia uma espécie de madeira com um prego virado para cima. Imaginem a dor terrível que senti, que me fez deitar na hora. Habituado a ver sangue vermelho - não tanto, mas era o que conhecia e até então e ouvira falar -, nesse dia, pela primeira vez, eu me deparava com uma tonalidade muito mais escura desse líquido da vida. Ele saía continuamente do meu pé, quase que totalmente negro. Uma tarde de diversão, de pura confraternização e festividade, dava início ao dia mais sangrento de toda minha vida. Acompanhado de meus amigos, fui socorrido e carregado até em casa, nas costas de um morador das redondezas que conhecia minha família. Na hora, meus pais desesperados com essa situação inicialmente não sabiam o que fazer. Por garantia, meu pai me levou com urgência para o hospital mais próximo, enquanto minha mãe e alguns parentes próximos continuaram com os preparativos. Fui parar no pronto socorro do Hospital Florianópolis/SC, no bairro do Estreito, onde esperei por duas horas para ser atendido. As ambulâncias não paravam de chegar. Incrível, como eu me machuquei num dia onde muitos acidentes ocorreram, pois as ambulâncias chegavam a cada 10 minutos trazendo vítimas. Na minha mente de criança parecia que a cidade estava em caos, mas não. O ambiente onde me encontrava é assim mesmo, com pessoas chateadas, doentes, feridas como eu, e outras agonizando aguardando atendimento. Durante esse espera, vi muitas imagens chocantes para uma criança da época. Eram seres humanos gritando e carregados em macas, e o mais marcante foi uma vítima que parecia ter mergulhado num reservatório de sangue, e ela berrava em meio aos prantos. Quando fui chamado pelo plantonista eu já nem sentia mais dor, mas era impossível de pisar no chão. Caminhei como um saci pela porta de entrada. Lá dentro, nos corredores, pessoas chorando e sendo consoladas. O médico me conduziu até uma sala, me examinou, e imediatamente solicitou ao enfermeiro alguns medicamentos. Eu estava sem dor até aquele momento, até chegar o maior temor de todas criancinhas: a INJEÇÃO, um argumento muito usado pelos pais contra as crianças que não querem se cuidar. A injeção foi uma antitetânica, um mal necessário para quem não quer perder um membro do corpo, e nessas situações, é aplicada bem no local do ferimento. Foi a segunda espetada do dia. Imaginem a dor! Chorei muito! Sei que minutos depois a dor passou, mas arrepio até hoje em toda vez que recordo desse momento. Terminava aí os momentos sangrentos dessa comemoração. Lá em casa, a festa que estava programada para acontecer as 16 horas, começou somente as 18. Quando cheguei, todos que me aguardavam ficaram espantados, pois meu pé direito estava enfaixado até o tornozelo. Não pude correr com meus primos e amigos, o que era uma rotina em nossos encontros. Apenas fiquei a maior parte do tempo sentado e traumatizado com as cenas horríveis que presenciei no hospital. Não foi um feliz aniversário.
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